sábado, 28 de fevereiro de 2009

MOACY CIRNE

O LIVRO DOS LIVROS
(5)
Texto estabelecido por
Domingos Bouzon Garmus & Luís Pereira Ramos

A história de Zeferino Cabeção, o Profeta

E os homens se multiplicaram. Multiplicaram-se os homens. E eis que, de Serra Negra, nas proximidades de Caicó, surgiu Zeferino Cabeção, descendente de Ribamar, Toré e Biró, Piromba, Jorginho e Alberi Goleador, Peri das Oiticicas, Dinarte Matrícula e José Lucas do Serrote. Zeferino Cabeção, ao completar 69 anos, vendo que os homens viviam uma vida muito chata, e acreditando nas Palavras do Senhor das Alturas, resolveu chamá-Lo para uma conversa de homem para homem, de cabra macho para cabra macho.

O Senhor das Alturas disse então a Zeferino Cabeção: "Sai de tua terra, de tua parentela, menos a esposa e as filhas, da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei. Farei de ti um grande povo e te abençoarei, engrandecendo teu nome de modo que se torne uma benção e um Profeta, o primeiro entre os primeiros, o primeiro entre os mais puros, o primeiro entre os seridoenses".

Mas Zeferino Cabeção respondeu-lhe: "Que eu seja um Patriarca, tudo bem... Mas Profeta? O Senhor ficou lelé da cuca? Não teria perdido o juízo não, Senhor das Alturas? Toda essa eternidade sem a menor graça deve lhe fazer um mal danado. Afinal, Profetas serão Isaías do Mundo Novo, Jeremias das Lamentações, Ezequiel da Solidão, Daniel da Pedra Lavrada, Jonas da Baleia Branca, Zacarias de Timbaúba, Malaquias de Jucurutu, Gentileza da Praça Quinze. Serei Patriarca - e ponto final - como patriarca será Moisés o Libertino. Não profetizarei que o Brasil perderá a Copa do Mundo de 50 em pleno Maracanã. Não profetizarei que o Cinema Nordeste, na Cidade dos Reis, será inaugurado em dezembro de 1958 da Era Comum. Não profetizarei que o homem conquistará a Lua no final dos anos 60 e que haverá, entre os jovens, um movimento chamado contracultura. E que, bem antes, haverá uma mulher revolucionária de nome Rosa Luxemburgo".

E mais disse: "Não profetizarei que As pelejas de Ojuara, livro escrito por um descendente dos tapuias, causará sensação. Que Eu Sou o Senhor da Cruz e Chiquim de Assis serão homens generosos e compreensivos. Que, em política, a direita será truculenta e a esquerda, ingênua. Que o racismo, o fascismo e o pseudomoralismo serão a expressão maior da intolerância e da doença mental. Que Assuntina das Amérikas será um filme incompreendido. Que o Senhor será questionado pelos cientistas do futuro. E mais não direi; não sou profeta, nunca fui".

E o Senhor das Alturas disse: "Homem, deixe de lengalenga e frescura, não importa se profeta ou patriarca, vá pegar sua trouxa e procure o seu destino a ser por mim indicado. E também, pelo sim pelo talvez, não seja um besta de cagar rodando. Quem avisa, amigo é". E Zeferino Cabeção partiu, como o Senhor das Alturas lhe havia dito, rumo ao Vale do São Francisco, na terra compreendida entre Pernambuco e Bahia. E o Senhor das Alturas apareceu a Zeferino Cabeção e lhe disse: "À tua descendência darei esta terra, mesmo contrariando alguns latifundiários poderosos".

Para evitar conflitos com os donos da terra, Zeferino Cabeção fez com que sua mulher se passasse por irmã e a eles se entregasse de corpo e alma. Houve porém uma grande seca na região, que durou 4 anos e 77 dias, a todos prejudicando. E Tonico Carlos Beleza, governante das terras baianas, e outros proprietários, supersticiosos, acharam que a culpa era dele, com aquela mania besta de adorar um só Senhor. Aconteceu, pois, que ele e sua família foram expulsos pelos capangas do poderoso Tonico para mais longe ainda, para as minas interioranas dos campos gerais, território governado por Riobaldim Diadorão, que gostava de enfrentar o Astucioso no meio do redemunho e passava o tempo todo a exclamar: "Viver é muito perigoso! Viver é muito perigoso".

E o Senhor das Alturas a todos cubava. E as alianças se faziam. E os nascimentos se davam. E as promessas se concretizavam. E as tentações se sucediam. E a cada novo baião-de-cinco mais e mais Zeferino Cabeção mostrava o seu valor de patriarca e cabra da peste. E aconteceu que Zeferino Cabeção arrependeu-se de sua vida devassa, orou com sincero fervor, e voltou, com sua mulher e suas duas filhas, para o Vale do São Francisco. A seca já acabara; torres alegravam os horizontes. As auroras pareciam mais cristalinas do que nunca.

Em lá chegando, Zeferino Cabeção procurou abrigo entre duas cidades, às margens do Rio do Chico, conhecidas por Axé Musiqueta e Gonorréia. Seu povo vivia na maior putaria: para todos os lados era possível encontrar uma, duas, três chibateiras, puaras das mais atrevidas, assim como homens rapariguentos de todas as espécies. E Zeferino Cabeção mais e mais orava. E o Senhor das Alturas continuava cubando. E não gostava do que via.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

MARCELO NOVAES

TAMBÉM SOU OITO



MARCELO NOVAES









Para minha surpresa - e para surpresa
minha -, ele não me dirige sequer palavra
quando nos sentamos frente à frente. Olha-me
nos olhos e mimetiza várias de minhas faces
- aquelas duzentas e doze -, e muitas das
posturas que acompanham as linhas
que trago no rosto: as linhas que
costurei para mim mesmo.




Para minha surpresa - e para surpresa
minha -, ali estão elas: bem mimetizadas
e sucintas, agora transtornadas em sua face
mais branda. E o que eu experimento já não
é surpresa, mas uma espécie distinta e ilesa
de curiosidade. E pequenas reações posturais
acompanham minhas reações mais íntimas
ao me ver tão bem descrito e moldado no
rosto que não sou eu mesmo.




E eu me atrevo a algum movimento, sem
peso. Logo me sou devolvido ao corpo fixo.
Se tenho pressa e me inclino - por exemplo -,
ele me toca no ombro direito, na hora mesma
em que intento mover-me daquele jeito. Sem
nada dizer nem dizer nada, seu rosto expressa:
“sei como tu és e como reages a você; desde
lá atrás, eu te sei”.




Sim, sabe. Porque o faz de forma contínua,
sem sequer pronunciar sílaba que seja. O tempo
parece se distender pra trás pra frente pra dentro,
fazendo-me presente e presentificado no ambiente,
e ao mesmo tempo projetado em tela grande atrás
dele - de plasma -, do tamanho de um estádio de
rugby.




Para surpresa minha - e pra minha surpresa -,
levanto-me, ancorado, sem sair da esteira - nem
ele do estrado -, e sigo ao mesmo tempo a oito
direções da estrada rarefeita - enquanto me vejo
em tela plana de plasma, compreendendo a razão
e o significado de cada gesto mínimo meu. Feixe
de sentimentos são ossos, músculos, ângulos de
passos: rápidos, lentos. Lentos, rápidos.




Chego num octógono, num teatro de arena
com oito faces - com oito lados -, e me ponho
no centro: também sou oito. Adolescentes me
entrevistam e me propõem aforismos e laços,
e que eu saia dos transes hipnóticos que
guardaram meus sopros nessa caixa de
músculos e ossos em que me mostro
ao mundo.




Sou oito. E lhes entrego uma súmula de
conteúdos com gestos autênticos.Novos.
Decifro-lhes os aforismos como certezas
e belezas presentes em mim mesmo.




Suas idades somadas recaem sempre
em oito. Também sou oito. Todos temos
a nossa quota de gesto e espelho, na vida.
Nada para correr atrás. Nem apressar a
saída deste Teatro de Arena.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O LIVRO DOS LIVROS (AGORA LINKADO)





MOACY CIRNE




O LIVRO DOS LIVROS



(4)
Texto estabelecido
pela
Assembléia dos Deuses Seridoenses
com a supervisão de
Olavo Madeira Que Cupim Não Rói

A Torre de Caicó

Os mais antigos ainda se lembravam da Biblioteca de Babel. Toda a terra usava uma só língua, a tapuia, com seu palavreado rascante e quase sem vogais, com raras exceções, sobretudo para os nomes das pessoas e dos lugares. E belos eram os nomes dos lugares. E poéticos eram seus nomes. Quixeré boquixeré era Riacho da Serra Brava; Quexoidi, Campo da Pedra; Quimaycoco, Pedra Brava; Utrebetukuam, Riacho Escuro; Cucuray, Poço d'Água Fria.

Mas ainda não existia a palavra califon, nem a expressão "a merda que virou boné"; não existia a palavra bangalafumenga, nem a expressão "acabar-se na mão"; não existia a palavra baitola, nem a expressão "boca da noite"; não existia a palavra granvanha, nem a expressão "bucho furado"; não existia a palavra papudinho, nem a expressão "cair nas águas". Não existiam outras palavras, outras expressões não existiam. "Casado na igreja verde", então, nem pensar.

E aconteceu que, partindo de vários lugares, em direção ao Seridó, como antes já ocorrera, os homens acharam a Caatinga Grande, e lá se estabeleceram, e lá disseram: "Vamos fazer tijolos e cozinhá-los ao fogo, descoberto pelos ancestrais de Caicó, e aproveitar as muitas pedras da região". E assim fizeram, no rumo de Queicuó e do Poço de Santana. E começaram a dividir as terras e os bois de forma desigual. Uns poucos ficavam com muito; a maioria não ficava com nada.

Mas havia aqueles que não se esqueciam dos ensinamenos dos livros proibidos nas primeiras eras do Jardim do Seridó. Rosembergue das Amérikas e Sindoval Rodrigo do Grajaú eram dois deles. Insatisfeitos com a situação do mundo, uniram-se e com a ajuda de operários, camponeses, estudantes, atrizes do teatro alternativo e do teatro rebolado, e atores e técnicos da chanchada nacional, resolveram construir uma torre nas proximidades de Caicó capaz de alcançar as nuvens e o Senhor das Alturas. "Vamos construir para nós uma nova Queicuó e uma torre que chegue aos céus, para mostrar ao Senhor das Alturas os seus erros ao criar a terra com tantas injustiças e tanta gente exploradora e medíocre".

Mas o Senhor das Alturas não gostou do que viu. E o Senhor das Alturas disse: "Eis que eles formam um só povo e todos falam a mesma língua. Isto é apenas o começo de suas fantasias. Agora nada os impedirá de fazer o que se propuserem. Vou descer e confundir-lhes a língua, de modo que não se entendam uns aos outros". E com seu poder diabólico o Senhor das Alturas fez com que a língua tapuia por todos falada e compreendida se multiplicasse em várias línguas para que os homens não mais se entendessem e abandonassem a construção da torre. E assim surgiram outras línguas. E assim surgiram outros modos de expressão: o seridoense, o tupi-guarani, o quichua, o náhuatl, o carioquês, o paulistês, o baianês, o pernambuquês, o gauchês, o mineiro-uai, o sânscrito, o quicongo, o quimbundo, o iorubá, o latim, o árabe, o espanhol, o grego, o franco-italiano, o joyceano, o roseano e outras línguas menos conhecidas, como a inglesa e a alemã.

E os habitantes do Seridó desistiram da Torre. E os os habitantes do Seridó mais ainda se espalharam por outras terras e conheceram outras gentes. E os habitantes do Seridó passaram a cultuar a Senhora de Sant'Anna, avó de Eu Sou o Senhor da Cruz, de origem franco-judaico-palestina, parente em primeiro grau do Senhor das Alturas. E a Senhora de Sant'Anna era doce e compreensiva. E a Senhora de Sant'Anna era amiga e companheira. E a Senhora de Sant'Anna não carregava água em balaio. Nem dava o doidão.

Próximo capítulo:
A história de Zeferino Cabeção, o Profeta

Nota dos editores d'O Livro dos Livros
para as palavras e expressões usadas,
segundo Max Antonio Azevedo de Medeiros
e outros escribas:

Califon : Sutiã
Merda que virou boné : O que dá tudo errado; a maior confusão
Bangalafumenga : Zé-Ninguém
Acabar-se na mão : Masturbar-se
Baitola : Homossexual
Boca da noite : Tardinha, quase noite; noitinha
Granvanha : Comida escassa
Bucho furado : Aquele que não sabe guardar segredo
Papudinho : Cachaceiro
Cair nas águas : Deixar-se enganar
Casado na igreja verde : amancebado; amigado
Carregar água em balaio : Perder tempo; esforço inútil
Dar o doidão : Agir impetuosamente; enlouquecer
Nota adicional -
Quichua : [Língua dos incas]
Náhuatl : [Língua dos astecas]
Quicongo, quimbundo, iorubá : [Línguas africanas]
Queicuó/Caicó : [Rio da ave cuó (acauã)]

A FERA.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

EU SINTO COMO RIMBAUD

ONTEM LI HAROLD BLOOM, REPORTAGEM DA VEJA SOBRE DARWIM, FUI NO YOU TUBE VER VÍDEOS CONTRA JESUS E O CRISTIANISMO, PASSEI A NOITE INTEIRA LENDO NA NET SOBRE JESUS, E DE TUDO O QUE SE DISSE CONTRA OU À FAVOR, FICA PARA MIM. A FRASE DE RIMBAUD,EIS A FRASE:
FRASE DE RIMBAUD:


"SOU UM ATEU QUE CHORA COM AS PALAVRAS DO CRUCIFICADO"

domingo, 8 de fevereiro de 2009

TU AMA OS PAPAI?

MEU FILHO PASSA OS FINS DE SEMANA COMIGO, EU DURANTE ESSES DOIS DIAS O IDOLATRO.
TESTO SUA PACIÊNCIA E SEU AMOR POR MIM DE MANEIRA INSUPORTÁVEL. É UM MÉTODO DE TORTURA MENTAL, DE TESTAR LIMITES.
CONSISTE NO SEGUINTE: PERGUNTO 6547 VEZES POR DIA A ELE, TU AMA OS PAPAI?
E ELE: AMO.
EU DIGO: MUITO?
ELE: MUITO!
-COMO UM RIO OU COMO UM MAR?
-COMO É O RIO?
DESSES TAMANHINHO(FAÇO UM GESTO COM AS MÃOS, DANDO A ENTENDER QUE É PEQUENO, CHINFRIM, O AMOR DE UM FILHO POR UM PAI, CUJO TAMANHO SE MEDISSE POR RIO).
-COMO É O MAR?
-É GRANDÃO, BEM GRANDÃO(AI FAÇO UM GESTO COM UM SORRISO NO ROSTO)
-COMO O MAR, DIZ A CAFAJESTEZINHO.
ISSO SE DÁ VÁRIAS VEZES POR DIA, OS DOIS DIAS QUE FICA COMIGO.
AMANHÃ ELE VAI PARA A CASA DA MÃE, ENTÃO VOU PERGUNTAR DE NOVO:
TU AMA OS PAPAI?
O RESTO FICA DEPOIS.

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

video





DESDE QUE LI CABRAL, E JÁ FAZ ALGUM TEMPO, FIQUEI IRRITADO COM DRUMMOND, E AINDA HOJE ACHO ABSURDA ESSA MANIA DE CHAMAR DRUMMOND DE "O MAIOR POETA BRASILEIRO, E NÃO SÓ POR SER INJUSTA COM JOÃO CABRAL, COMO INJUSTA COM MUITOS OUTROS POETAS. NUNCA VI NADA EM DRUMMOND QUE O QUALIFIQUE COMO O MELHOR, NEM ENTRE OS DEZ MELHORES ELE ESTÁ. MAS MEU ASSUNTO AQUI É JOÃO CABRAL. E JOÃO ERA BOM, PARA TODOS UM GRANDE POETA, PARA MIM, O MAIOR DE TODOS. DAS IDIOTICES QUE SE FALAM EM LITERATURA, E SÃO MUITAS, UMA MUITO COMUM É DIZER QUE JOÃO FAZIA UM POESIA CEREBRAL. POESIA CEREBRAL TODA É, UMA VEZ QUE TODA POESIA, COMO TODO O MAIS, VEM DO CÉREBRO. MAS O SENTIDO QUE SE DÁ A PALAVRA CEREBRAL É DE UMA COISA FEITA FRIAMENTE, MAQUINALMENTE, MECÂNICAMENTE, ISSO É TOLICE. NENHUM AUTOR DE POESIA, DE NENHUM LUGAR, ME FEZ CHORAR TANTO AO LER SEUS POEMAS COMO JOÃO CABRAL. MUITAS VEZES PELO CONHECIMENTO DO QUE ELE FALAVA, DE TER VISTO O LUGAR E AS PESSOAS DAS QUAIS ELE FALAVA, MAS MUITAS VEZES SEM SEQUER CONCEBER OS LUGARES E AS PAISAGENS DO POETA. TOMO DOIS EXEMPLOS DISSO. O PRIMEIRO É ESSE:



"THE COUNTRY OF THE HOUYHNHNMS"

Para falar dos yahoos, se necessita
que as palavras funcionem de pedra:
se pronunciadas, que se pronunciem
com a boca para pronunciar pedras;
se escritas, que se escrevam em duro
na página dura de um muro de pedra;
e mais que pronunciadas ou escritas,
que se atirem, como se atiram pedras.
Para falar dos Yahoos se necessita
que as palavras se rearmem de gume,
como numa sátira; ou como na ironia,
se armem ambiguamente de dois gumes;
e que a frase se arme do perfurante
que tem no Pajeú as facas-de-ponta:
faca sem dois gumes e contudo ambígua,
por não se ver onde nela não é ponta.



Ou para quando falarem dos Yahoos:
não querer ouvir falar, pelo menos;
ou ouvir, mas engatilhando o sorriso,
para dispará-lo, a qualquer momento.
Aviar e ativar, debaixo do silêncio,
o cacto que dorme em qualquer não;
avivar no silêncio os cem espinhos
com que pode despertar o cacto não.



Ou para quando falarem dos Yahoos:
não querer ouvir falar, pelo menos;
ou ouvir, mas engatilhando o sorriso,
para dispará-lo a qualquer momento;
ouvir os planos-afinal para os Yahoos
com um sorriso na boca engatilhado:
na boca que não pode balas, mas pode
um sorriso de zombaria, tiro claro.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

MARCELO NOVAES




ELOGIO À PINTURA DA PRIMEIRA SAUDADE




Nesses teus quadros ficaram os crepúsculos, as luzes difusas. As silhuetas são metades. Os olhos são perguntas. As cores são ocres e minerais.


Há ruínas e sonhos: dois vultos sobre um solo petrificado, aquele pássaro e aquele rosto sobre a lava vulcânica, e as marcas de pés negros negros sobre o amarelo pedregoso,texturizado. Ancestralidade é o que parece pairar sobre todas as tuas composições: o velho Parthenon, a cena de caça rupestre cintilando no alumínio, aquele estranho ser alado estranho-ser-alado em contraste com o fundo terroso que, por seu brilho ígneo, me remete à descoberta do fogo:salamandra. Teu ser-salamandra é fresta, uma passagem de fogo para outro mundo, a língua-de-fogo que desemboca nas cavernas e nas gargantas de nossos
antepassados.



Quanta saudade nesses cobres avermelhados contra o céu da prússia, nesse vermelho-de-óxido e na siena queimada, e até no amarelo ouro...Há saudade no amarelo quando iluminado pela tua lanterna medieval...Há saudade nas frestas, e há frestas por toda parte!, nas silhuetas, na salamandra-inseto e nos olhos que nos espreitam de teus quadros...Há frestas entre as metades e nas distâncias que nos separam da arte pré-histórica que você quis rememorar, a nostalgia de um tempo que não se viveu. E lirismo, também (permita-me dizê-lo!), de um tipo quase hipnótico, mas não fácil; do tipo que "ousa interrogar as idades"...



Você murmurou alguma coisa como as interjeições primitivas, aqueles indizíveis que o ancestral tentou balbuciar quando se entristeceu ou viu o sagrado pela primeira vez: quando descobriu o raio incendiando uma árvore, a criança agonizando, a lua saindo por detrás da primeira nuvem.E você nos mostra essas interjeições como verdes em vermelhos, como negros em amarelos, como acalantos e tristezas poéticas, algo para se ver e ouvir ao redor do fogo, com olhos de farolete. É a tua versão daquela canção feita de interjeições nascentes, nascidas da visão do mundo visto pela primeira vez.



Difícil imaginar lirismo mais radical. Ou mais triste.


MARCELO NOVAES

http://olugarqueimporta.blogspot.com/2008/05/noite-em-norte-dfrica.html



NOITE EM NORTE D'ÁFRICA






Joguei a estrela prata
no rio que passava
atrás da porta,





no córrego ao rés
da rua, rente à
guia,





no filete d'água
suja que corria,





e nem ela mais
brilhava,





a estrela que tirei
de tua orelha esquerda,
na noite fria em norte
d'África.





(Dos animais ferozes
éramos os mais...).





Joguei a estrela longe de casa,
bem sei, longe do algar, longe
da praça principal longe da
fonte, quando já era
longínquo o mar e
ínfimo o
céu.





Joguei-a quando não mais
havia afago lágrima calor
cuidado, veludo lustre ouro
calafrio, música nos olhos,
piano nas pálpebras,
pássaro nos dedos,





e quando escorria-nos
da memória os poemas
lusitanos que tanto
amávamos:





Pessoa, Pessanha.
Cesário Verde.
Vieira Calado.




Calamo-nos.




Tornamo-nos árvores
fincadas em solo
africano,






separadas por um
palmo, sem braços,
sem galhos,





nenhum dos dois se
lembrando do que
agradava ao outro,
nem sabendo nos
olhar nos
olhos.





Tornamo-nos, ambos,
desviados, caolhos,
fraturando a única
estrela inteira que
luzia no céu inteiro,





naquele mar índigo
infinito africano
infinito,





que pairava infinitamente
acima do antigo e morto
amar tanto que já não
mais sabíamos.





Tornamo-nos
dois.




Divididos.





Quebramos as pontas
da estrela ilhada que
partiu-se em duas
metades inteiras,
caídas atrás de
nossas costas.





Viramo-nos,
idos um do outro,
definitivamente.




Pra nunca mais.
Pra sempre.





Naquela noite triste
havida em norte
d'África.



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

NIETZSCHE

"Os erros de grandes homens... são mais fecundos que as verdades de pequenos." [ Friedrich Nietzsche ]

O QUE DESMORALIZA NIETZSCHE PARA ELE PRÓPRIO, É SHAKESPEARE.
O QUE DESMORALIZA NIETZSCHE PARA O MUNDO É JESUS.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

SHAEYLA AZEVEDO

DO AMOR E OUTRAS QUIMERAS

Sheyla Azevedo[ in Bicho Esquisito ]


Os poetas que eu amei me deixaram gosto de palavra na boca e um coração em formato de baú, onde eu guardo principalmente lembranças de versos inacabados.
Os poetas que eu amei me deixaram sandálias de pedra e rastros de outras Marias, Joanas e fulanas que eu nunca poderia ter sido.
Os poetas que eu amei deixaram frases tempestuosas, que causaram enxurradas, relâmpagos e trovões no meu céu de agosto, que tem gosto de sálvia e alecrim.
Os poetas que eu amei quando descobriram meus olhos tristes e minhas mãos mancas, deram risada do meu jardim pisoteado pelos meus gatos e pelas joaninhas que se escondem por entre as folhas.
Os poetas que eu amei deixaram gosto de relva nos meus cabelos e meia dúzia de canções na vitrola (que eu não ouço mais).
Os poetas que eu amei nunca se deixaram fotografar à luz do dia.
Mas se entregaram às metáforas das minhas pontes e às linhas dos meus desejos (sempre no cenário da lua).
Os poetas que eu amei me deixaram gestos lascivos como: passar os dedos por entre os cabelos; caminhar sentindo a areia tocando os pés; ouvir som de flauta e atravessar sorrisos com gargalhadas.
Os poetas que eu amei me deixaram, no mínimo, três imperfeições.
Com as quais invento sonhos, desenho caminhos e ergo muros.

ISSO É LINDO!
MUITO MELHOR DO QUE VI NO BLOG DE ANTONIO CÍCERO, MUITO MELHOR DO QUE A POESIA, A FALSA E RIDÍCULA POESIA CONCRETA, DOS POEMAS RIDÍCULOS POSTADOS POR GENTE RIDÍCULA QUE FAZ POSE PRA GENTE RIDÍCULA ACOMPANHAR O CORTEJO DE IMBECIS.
MUITO MELHOR QUE O POEMA DE JORGE SALOMÃO, QUE EU CONSIDERO A MAIOR IDIOTICE EM POESIA QUE UM HOMEM JÁ ESCREVEU.
EU POSTEI "O ESCUDO O ELMO E A SOMBRA" DE MARCELO NOVAES, NÃO HOUVE UM BABA-OVO DO ANTONIO (E ELE OS TEM, E SÃO MUITOS) QUE ACHASSE GRAÇA NO POEMA. O ÚNICO COMENTÁRIO FEITO FOI PELO PRÓPRIO CÍCERO, PEDINDO PARA QUE EU REDUZISSE O POEMA, NÃO O TEXTO,, MAS O ESPAÇO QUE ELE OCUPA.
O QUE ME ARREPENDO, MUITO, FOI TER FEITO ISSO. PELO MOTIVO SIMPLES, NENHUM TEXTO MEDÍOCRE DE ANTONIO CÍCERO SE COMPARA AO "ESCUDO", SUAS MÚSICAS MEDÍOCRES PARAS SUA IRMÃ, MARINA LIMA, QUE EU ACHO PÉSSIMA, MAS QUE ELOGIEI NO CRONÓPIOS, TANTO TANTO QUANTO AO PRÓPRIO. ME ENVERGONHO DISSO. COMO DE TER ELOGIADO UM TEXTO BREGA DO SR ADRIANO NUNES. QUEM SOU EU PARA RIVALIZAR COM GENTE COMO ANTONIO CÍCERO ? SOU , SOU MUITO, ME RESPEITO .
ESSA MENINA É O MÁXIMO.
LINDO POEMA.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

O DILÚVIO DE ÁGUA (AINDA NÃO HAVIA O PLENASMO, TOLINHO!).






MOACY CIRNE



O LIVRO DOS LIVROS
(3)
Texto estabelecido a partir dos
Manuscritos do Mar Vivo das Arábias Orientais
com supervisão astrológica de Ludovicus Erasmus

A jangada de Mestre Cascudinho

E o Senhor das Alturas se fez impiedoso em sua fúria diabólica. Mas, entre todos os habitantes da terra, havia um que o Senhor das Alturas respeitava e considerava boníssimo: Mestre Cascudinho, morador da Cidade dos Reis, cujas andanças pelo interior do Rio Grande a todos causava admiração. Mestre Cascudinho era homem justo e íntegro. Gerou dois filhos. Ana Mariana Potyguar era o nome da donzela; Luís Fernandes Pedro Velho, o nome do mancebo. Mas a terra estava corrompida diante dos olhos do Senhor das Alturas.

Então o Senhor das Alturas disse a Mestre Cascudinho: "Chegou o fim de toda criatura mortal que existir. A terra está cheia de maldade. Vou destruir a todos com um toró tão grande que vai provocar, nos açudes da região e adjacências, a maior sangria de todos os tempos. Durante 40 dias e 40 noites choverá sem parar. Sangrará o Itans, o Boqueirão sangrará, sangrará o Gargalheiras, o Zangarelhas sangrará, sangrará a Passagem das Traíras, o Açudão de Açu sangrará".

E o Senhor das Alturas disse mais: "Construas uma jangada gigante, a maior possível, e nela abrigues tua família, os insetos do canto de muro de tua casa, o Boi Calemba, o Boi da Cara Preta, a onça Galileu Ziraldino e outros animais da fauna seridoense. E assim foi feito. E assim aconteceu. O toró que caiu, num raio de muitas e muitas léguas, inundou quase todo o Rio Grande e ainda sobrou água para outras terras e outras gentes.

Os mais antigos, os povos que, excluídos da jangada, conseguiram sobreviver, lutando contra a fúria do Senhor das Alturas, ainda se lembravam: as águas se tornaram violentas e aumentaram muito sobre a terra de modo que a grande jangada começou a flutuar na superfície das águas. As águas cresceram tanto sobre a terra que cobriram as montanhas mais altas que estão debaixo do céu.

Depois de mais 40 dias e 40 noites, quando as águas começaram a baixar, a jangada pousou sobre a Serra do Mulungu. Mestre Cascudinho e os outros, no meio de um lamaçal feladaputa, a abandonaram e, unindo-se a homens e mulheres que, aos poucos, começaram a surgir da Paraíba, de Pernambuco e do Ceará, e mesmo das Alagoas Sergipanas, esperavam pela Palavra do Senhor das Alturas.

Então o Senhor das Alturas, espantado porque o número de homens e mulheres era maior do que ele imaginara, mas momentaneamente conformado com a situação, falou a Mestre Cascudinho e aos demais: "Já que muitos sobreviveram, mesmo sem estarem na jangada, saiam, todos vocês, pelos sertões do Seridó, e forniquem bastante, sejam fecundos e se multipliquem sobre a terra". O Senhor das Alturas disse mais: "De minha parte, vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência: nenhuma vida animal será novamente exterminada pelas águas de um dilúvio, a não ser pelas bombas, pelos fuzis, pelas metralhadoras e pelas balas perdidas".

E assim Caicó se reergueu, reergue-se Acari, São José se reergueu, reergueu-se Serra Negra, Cruzeta se reergueu, reergueu-se Carnaúba dos Dantas. Currais Novos, também. Também Timbaúba dos Batistas. São Fernando, também. Também Parelhas. Ouro Branco, também. Também São João do Sabugy e Jardim de Piranhas. Só o Jardim do Seridó não fora engolido pelas águas e, com sua Biblioteca de Babel, permanecia praticamente inacessível para os pobres mortais de todas as cores e de todos os credos.

E a humanidade voltou a se espalhar por esse mundão de deus e o diabo na terra em transe, com seus vaqueiros e cantadores, e assim se formaram novos homens, novas mulheres, novas amizades, novas amigações. E a humanidade voltou a se impor: Rosembergue das Amérikas conheceu Carla Brunilda e outras mulheres e de tanto chumbregarem muitos filhos tiveram e muitos filmes fizeram. Chico Antônio do Coco Queimado conheceu Mário dos Andradas e os dois se apaixonaram por Patrícia Gavião, mulher de Oswaldo Pau-Brasil. Sindoval Rodrigo do Grajaú conheceu Rosa Hamburgo e de tanto discutirem as idéias dos livros proibidos da Biblioteca de Babel criaram a Comunidade Arretada do Mundo Novo. Dailor Galo da Madrugada conheceu Civone Completamente Nua e os dois, pássaros errantes, geraram filhos e filhas. Oswaldo Fescenino conheceu Nísia Mata Atlântica e de tanto chamegarem muitos filhos tiveram e muitos livros escreveram. Todos viviam, em média, 69 anos. E todos falavam a mesma língua-mãe: a língua tapuia.