sábado, 28 de março de 2009

ZANGADO







NÃO TENHO TEMPO NEM PACIÊNCIA PARA OS ATEUS, NEM PARA OS SANTOS.
NEM PARA OS PONDERADOS, NEM PARA OS RADICAIS,
PARA OS QUE SÓ GANHAM, NEM PARA OS QUE SÓ TENTAM.,
PARA AS PUTAS, NEM AS VIRGENS.
ESTOU APRESSADO, PORQUE JÁ GASTEI 33 ANOS DE MINHA COTA, E QUERO O CLARO, O CERTO.
TENHO TIDO POUCA COMPREENSÃO PELOS COVARDES, PELOS CRENTES, PELOS PAPAS, E POR OS QUE NÃO AMAM.
CISMO QUE SÓ IDIOTA ALCANÇARÁ O REINO DOS CÉUS, E SINTO NÃO SER UM DELES.

NÃO QUERO SALVAÇÃO PÁLIDA, ESQUÁLIDA, CAQUÉTICA.
EU VIVO NO LIMITE DE JOGAR, E NO JOGO JOGAR TUDO FORA, E NÃO JOGAR, E ESTAR VIVO.

ENTREVISTADOR DESABUSADO

-QUAL O MAIOR MÉRITO DO GOVERNO LULA?
-OS AVANÇOS SOCIAIS, QUE FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, NÃO CONSEGUIU OU NÃO QUIS FAZER.
-E A QUE O SENHOR CREDITA ESSAS CONQUISTAS SOCIAIS?
-A NOSSA POLÍTICA ECONÔMICA.
-MAS OS JUROS NÃO SÃO UM DOS MAIORES DO MUNDO?
-VEJA BEM, NÓS JÁ ENCONTRAMOS OS JUROS ALTOS, ESTAMOS FAZENDO O POSSÍVEL PARA BAIXAR, O GOVERNO FHC, DEIXOU DE HERANÇA ESSAS MAZELAS, TEMOS QUE CONSERTAR O QUE ELES FIZERAM DE ERRADO, NOS HERDAMOS UM PAÍS ARRUINADO.
-O SENHOR CRIOU O PLANO REAL, ESTABILIZANDO UMA ECONOMIA QUE NÃO TINHA CÃO NO MUNDO QUE ESTABILIZASSE?
-NÃO.
-QUEM CRIOU?
-VEJA BEM, O GOVERNO ANTERIOR...
-O SENHOR QUER DIZER O GOVERNO DO EX-PRESIDENTE FERNANDO HENRIQUE CARDOSO...
-SIM, O GOVERNO FHC, CRIOU, MAS FOI ATRAVÉS DE NÓS QUE O PAIS CONSEGUIU AVANÇOS SOCIAIS...
-QUE NÃO SERIAM POSSÍVEIS SEM O PLANO REAL, CONCORDA?
AONDE VOCÊ QUER CHEGAR, RAPAZ?
-QUEM APRIMORA NUNCA SERÁ O HERÓI, PORQUE NÃO TEM O MÉRITO DE SER CRIADOR, QUE SE O FHC NÃO TIVESSE PASSADO PELA PRESIDÊNCIA A LHE ENTREGUE A FAIXA, O GOVERNO DE VOCÊS SERIA O MAIOR FRACASSO DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE, QUE TUDO DE BOM DO SEU GOVERNO, E TEM ALGUNS MÉRITOS INDISCUTÍVEIS, SÓ ACONTECERAM PORQUE O SENHOR SUCEDEU A UM GIGANTE, COMO DISSE GUSTAVO FRANCO, QUE SE FOR VER O MUNDO PELA ÓTICA DE QUE PEGUEI O PAÍS MAL, ENTÃO FHC LHE ENTREGOU A SUÍÇA EM COMPARAÇÃO AO QUE RECEBEU, PORQUE PEGOU O PAÍS COM UMA INFLAÇÃO DE DÉCADAS, LHE ENTREGOU COM UMA INFLAÇÃO SOB CONTROLE. PEGOU UM PAIS SEM ORÇAMENTO, LHE ENTREGOU UM OUTRO COM, CRIOU OS PROJETOS SOCIAIS DOS QUAIS O SENHOR SE GABA COMO SE FOSSEM DE SEU GOVERNO,COLOCOU O BRASIL NO MUNDO CIVILIZADO. É BOM LEMBRAR QUE FHC DESINCHOU O ESTADO, E PROPICIOU SUA MODERNIZAÇÃO, E POR FIM, CRIOU A LEI DE RESPONSABILIDADE FISCAL, QUE SE FOSSE TUDO QUANTO FIZESSE, JÁ O COLOCARIA NO LADO BOM DA HISTÓRIA, QUE DEVERÁ SER O SEU TAMBÉM, MAS PARA BRILHAR UMA ESTRELA, NÃO PRECISA APAGAR OUTRA. O SENHOR TEM MÉRITOS, MUITOS, MAS QUERER DIMINUIR OS DE FHC, NÃO O FARÃO MAIS MERITÓRIOS, E AINDA O ENCOLHEM ENQUANTO HOMEM.

quinta-feira, 26 de março de 2009

CHICO BUARQUE EXISTE?


JOSÉ SARAMAGO DISSE, NÃO FOI DIOGO MAINARDI, FOI JOSÉ SARAMAGO, QUE CHICO BUARQUE ERA UM GRANDE ESCRITOR.
EU LI ESTORVO, UMA OBRA-PRIMA, UM DOS MELHORES LIVROS QUE LI NA VIDA. BENJAMIM, VI O FILME, MUITO BOM, EXCELENTE.
CHICO BUARQUE ESTÁ ACIMA DE FERREIRA GULAR, E DE NOVENTA E NOVE POR CENTO DOS POETAS POSTOS EM LIVRO.
O ÚNICO COMPOSITOR DE MPB QUE PODE TIRAR AS MELODIAS DE SUA MÚSICA QUE ELE RESISTE, E BEM, COMO GRANDE POETA.


Súbito me encantou
A moça em contraluz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó

Por encanto voltou
Cantando a meia voz
Súbito perguntei: quem és?
Mas oscilou a luz
Fugia devagar de mim
E quando a segurei, gemeu
O seu vestido se partiu
E o rosto já não era o seu

Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez

Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais


QUANTOS ESTÃO HABILITADOS A ESCREVER ASSIM? POUCOS, QUASE NENHUM.
AS MÚSICAS DO CHICO SÃO DE UMA PERFEIÇÃO CABRALINA, SUA SENSIBILIDADE É DE ASSUSTAR.


Vai a onda
Vem a nuvem
Cai a folha
Quem sopra meu nome?
Raia o dia
Tem sereno
O pai ralha
Meu bem trouxe um perfume?
O meu amigo secreto
Põe meu coração a balançar
Pai, o tempo está virando
Pai, me deixa respirar o vento
Vento

Nem um barco
Nem um peixe
Cai a tarde
Quem sabe meu nome?
Paisagem
Ninguém se mexe
Paira o sol
Meu bem terá ciúme?
Meu namorado erradio
Sai de déu em déu a me buscar
Pai, olha que o tempo vira
Pai, me deixa caminhar ao vento
Vento

Se o mar tem o coral
A estrela, o caramujo
Um galeão no lodo
Jogada num quintal
Enxuta, a concha guarda o mar
No seu estojo
Ai, meu amor para sempre
Nunca me conceda descansar
Pai, o tempo vai virar
Meu pai, deixa me carregar o vento
Vento
Vento, vento



EM VERDADE VOS DIGO: QUEM NÃO ADMIRAR ISSO, NÃO ENTRARÁ NO REINO DOS CÉUS.






GÊNIO?
NO BRASIL DE HOJE É O QUE ESTÁ MAIS PERTO DISSO.

sábado, 21 de março de 2009

TENHO TEMPO

ONTEM, ÀS 2:30 DA MANHÃ EU ESTAVA ACORDADO, ESTAVA LENDO A NOTÍCIA AUSPICIOSA SOBRE O MAL DE PARKINSON E SUA POSSÍVEL CURA. OLHEI O MEU FILHO DORMINDO, OLHEI PARA ELE COM O CORAÇÃO TERNO, COM O CORAÇÃO MARCADO PELA DOR QUE SÓ OS QUE PASSARAM PELO QUE PASSEI PODE SENTIR.


CONTANDO SOBRE A MINHA DOÊNÇA, É MUITO COMUM ALGUÉM DIZER: EU ENTENDO. CONVERSA, NINGUÉM SABE O QUE É O MAL DE PARKINSON, SENÃO QUEM TEM. NINGUÉM PODE SENTIR O QUE QUEM TEM ESSA DOÊNÇA SENTE. DENTRE TODOS OS NOMES QUE SE DÃO A ELA, O MAIS HORRÍVEL E ASSUSTADOR É: PARALISIA AGITANTE. PARKINSON NÃO É A DOÊNÇA MAIS CRUEL, NEM CHEGA A SER LETAL, MAS É A MAIS PRESENTE DAS DOÊNÇAS. QUEM TEM PARKINSON, TEM VINTE E QUATRO HORAS POR DIA. E SENTE ELA TRABALHANDO.

JÁ NÃO ESTOU NO ESTÁGIO INICIAL DA DOÊNÇA, MINHA MEDICAÇÃO ESTÁ EM ALTA DOSAGEM, E EU AGUARDAVA AS CÉLULAS TRONCO.

AI VEM UM CARA LÁ DE NATAL, UM CARA METIDO A BESTA, SIM PORQUE BRASILEIRO QUE SE METE COM CIÊNCIA É UM METIDO, E DIZ QUE CONSEGUIU PROGRESSOS FANTÁSTICOS CONTRA O MAL. E SAI NA MAIOR PUBLICAÇÃO CIENTÍFICA DO MUNDO.

UM CARA, ILUMINADO POR CRISTO, ME DIZ QUE EU VOU FICAR BOM. MEU FILHO RESSONA, EU TENHO VONTADE DE CHORAR. MAS ISSO NÃO É NOVELA MEXICANA, E TAMPOUCO ESTOU CURADO. MINHA IRMÃ JÁ COMEÇA A ME AMEAÇAR DE TER SUBIR UMA ESCADARIA DE UMA IGREJA DE JOELHOS , MEU PAI LIGA E DIZ QUE VOU ME CURAR, ESTABELECE ATÉ UM PRAZO: DOIS ANOS. EU ME EMPOLGO .
MAS SE TUDO DER ERRADO NISSO, SE DER PARA TRÁS, SE EU NÃO ME CURAR E A DOÊNÇA AVANÇAR, RESTA UMA COISA, MUITO FORTE, MUITO FUNDA: O AMOR DE MINHA FAMÍLIA, DE MEUS AMIGOS, O AMOR.
QUERIA NAÕ TER TIDO NUNCA ESSA DOÊNÇA, MAS TENHO, E ACREDITO QUE VOU DEIXAR DE TER, E TENDO E TIDO ME CURADO, SAIO PARA A VIDA BLINDADO, FORTE, INDESTRUTÍVEL, SABENDO QUE O VELHO SANTIAGO TINHA RAZÃO, UM HOMEM PODE SER DESTRUÍDO, NUNCA DERROTADO.
ESTOU FELIZ ,MUITO FELIZ. AGUARDO A HORA DE DILACERAR MEUS JOELHOS, JUNTO COM MINHA IRMÃ.

VIVA A CIÊNCIA

ESTÃO DANDO CHOQUES NAS COSTAS DOS RATOS PARA CURAR AS RATAZANAS HUMANAS.

quinta-feira, 19 de março de 2009

ÍDOLOS E SALVADOR





POETA QUALQUER UM É, POESIA QUALQUER UM FAZ. MAS HÁ UMA ENORME DIFERENÇA ENTRE OLHAR MEU FILHO COM TERNURA E RELATAR ISSO EM LIVRO. ME ARRISCO DE VEZ EM QUANDO A ESCREVER POESIA, MAS SEM PRETENSÃO ALGUMA. DE TODOS OS POETAS QUE LI NA NET, UNS MUITO BONS, OUTROS BONS, O ÚNICO QUE PODE, E COM TODA RAZÃO DO MUNDO QUERER VER O QUE ESCREVEU EM UM LIVRO, IMPRESSO, EDITADO, EM GROSSO VOLUME, É MARCELO NOVAES.
TENHO ELE COMO UM ÍDOLO, NÃO NEGO, NUNCA NEGUEI ISSO. MAS É BOM QUE DIGA O QUE É UM ÍDOLO PARA MIM. ÍDOLO PARA MIM É ANTES DE MAIS NADA A OBRA NÃO A PESSOA. JAMAIS COLOCARIA CHICO BUARQUE ACIMA DE SUA OBRA. FALO DO SENTIDO ESTÉTICO, NÃO MORAL.
A OBRA DE UM POETA É SEMPRE MAIOR QUE ELE, POR MAIS ÉTICO E HONESTO QUE POSSA SER, NINGUÉM VAI SE TORNAR FÁ DE UM CARA POR QUE ELE É HONESTO. AO PASSO QUE EU NÃO VOU DEIXAR DE ADMIRAR CAZUZA PORQUE ELE FUMAVA MACONHA.
ÍDOLO PARA MIM NÃO É FÚRIA, NEM GRITO. ÍDOLO É ABRAÇO. JAMAIS GRITARIA AO VER CAETANO, NEM LHE QUERIA UM AUTÓGRAFO, QUERIA UM ABRAÇO.
NÃO ESPERO DE MEUS ÍDOLOS QUE SEJAM DEUSES, ESPERO QUE SEJAM HUMANOS, ESPERO QUE SEJAM GENTE.
A HISTÓRIA PESSOAL A SER SEGUIDA É A DE JESUS. MAS JESUS NÃO É MEU ÍDOLO, PORQUE QUALQUER QUALIFICAÇÃO QUE DOU A HUMANOS, DAR A ELE SERIA DIMINUÍ-LO. E QUERO SEPARAR AS COISAS. MARCELO NOVAES É UM ÍDOLO MEU. CAETANO, CHICO, JOÃO CABRAL DE MELO NETO, NELSON RODRIGUES, DOSTOIEVSKI, SHAKESPEARE(O MAIOR DELES), MAS NÃO CONFUNDO AS COISAS, DOBRAR OS JOELHOS, CHORAR , DIZER-ME RUIM, PEDIR-LHE PERDÃO, AMAR SUA DOR, CHAMAR SALVADOR, SÓ A JESUS CRISTO..
AOS MEUS ÍDOLOS MEU APREÇO , MEU ABRAÇO. À JESUS MINHA DOR, MEU CANSAÇO

quarta-feira, 4 de março de 2009

MEU BOLO DO VASCO

NASCI NO RIO E SAI DAI COM 10 ANOS. AMO LOUCAMENTE PERNAMBUCO, NÃO IMAGINO MELHOR LUGAR PARA MIM.
O QUE ME CHEGA AQUI É A MISÉRIA DA VIOLÊNCIA DAÍ, HORRÍVEL E REAL. MAS TENDO A SER CONTRÁRIO A VISÕES DE FORA DAS CIDADES, PORQUE NÓS DO NORDESTE, SOMOS CARICATURADOS A CADA NOVELA DA GLOBO, A CADA DOCUMENTÁRIO DITO SÉRIO.
A IMAGEM DO RIO QUE TENHO É A DE MINHA INFÂNCIA. E MINHA INFÂNCIA FOI LINDA.
NÃO FALO DA BELEZA DA CIDADE PORQUE NÃO PRECISA E GIL JÁ DISSE TUDO, FALO DO QUE SALVA O RIO, DO QUE O REDIME, FALO DO TEMPO EM QUE EU ERA CRIANÇA E PASSAVA O DIA COM MEU PAI EM UM CARRO PRÉ-PRÉ-PRÉ HISTÓRICO, VENDENDO BOLO EM FAVELA.
FALO DE SOLTAR PIPA O DIA TODO, E FAZER UMA COM PAPEL BRANCO PARA SOLTAR A NOITE, FALO DE IR VER O VASCO JOGAR NO CARRO COM MEU PAI (PORRA! TÒ CHORANDO) E UM MONTE DE VASCAÍNOS. FALO DA TRAVESSA LAURINDA, FALO DE AOS SETE ANOS TER CHORADO AO OUVIR UM HOMEM CANTAR O SOFRIMENTO DE UMA CERTA GENI, QUE SALVAVA A CIDADE E ERA APEDREJADA POR QUEM SALVOU, E DESSE HOMEM, ANOS DEPOIS SER AMADO POR MIM, FALO MINHAS BRINCADEIRAS, DONA ZILDA, A MORTE DO PORCO, DE QUANDO MEU PAI VENDEU O CARRO E CHOROU, DE COMO EU O AMO E DE QUANTO O RIO FAZ PARTE DISSO. ROBERTO DINAMITE, GARRAFÃO, RICARDO, UM CARA QUE ESCOLHEU CAMINHOS ERRADOS NA VIDA, MAS ME ADORAVA, ME DAVA PIPAS, BOLA DE GUDE, ME DEFENDIA E TINHA UMA TATUAGEM,E MEU PAI DEIXAVA EU SOLTAR PIPA COM ELE E NUNCA ME DEU CONSELHO PARA NÃO FAZER O QUE RICARDO FAZIA, PORQUE SABIA QUE EU NÃO FARIA.
MEU BOLO DO VASCO, MEU DEUS! PORQUE EU´SOU TÃO IDIOTA PARA CHORAR LEMBRANDO ISSO. MEU BOLO DO VASCO! A ELE DEVO O QUE TENHO DE BOM. SE NÃO FOSSE O BOLO DO VASCO EU NÃO GOSTARIA DE POESIA. TALVEZ FOSSE UM ASSASSINO.
MEU PAI NUM TEMPO RUIM, NO MEU ANIVERSÁRIO, MANDOU DONA ZILDA(LÁGRIMA É SALGADA, DEVIA SER DOCE) FAZER UM BOLO DO VASCO PARA MIM. DIAS ANTES EU ESCUTEI ELE DIZER PARA MINHA MÃE QUE HAVIA VENDIDO O CARRO E QUANDO O DINHEIRO ACABASSE IRÍAMOS EMBORA, DIAS DEPOIS O BOLO. MEU PAI DIZENDO QUE ESTAVA PERDENDO A FÉ EM DEUS POR NÃO ARRUMAR EMPREGO, E EU CHORANDO NO QUARTO COM RAIVA DE DEUS POR ELE DEIXAR MEU PAI PERDER A FÉ NELE, NÃO PEDIA UM EMPREGO PARA MEU PAI, PEDIA QUE DEUS DEVOLVESSE A FÉ QUE ELE TINHA, E SE DEUS NÃO DEVOLVESSE EU FICARIA DE MAL COM ELE. ENTÃO MEU PAI ME DEU MEU BOLO DO VASCO, CHAMEI MEUS COLEGUINHAS E TODOS COMEMOS. MAS O MEU BOLO NÃO PÔDE SER COMIDO, NEM PODERÁ, POR QUE NINGUÉM PODE COMER O AMOR.
PARABÉNS, CIDADE DE DOR, MAS LINDA, E QUE ME ENSINOU A AMAR.

segunda-feira, 2 de março de 2009

O ESCUDO, O ELMO E A SOMBRA

MARCELO NOVAES







Para Wellington










Ele fermenta a partir das uvas
pretas, dos bagos pisados das
uvas pretas.







E dele eu me embriago.
Não bebo como ensinou
Teofrasto, cortando o
vinho em água, ou em
carne antes
degustada.







Não, eu me embriago
de verdade. Eu visto
a máscara que me
distorce,e ela me
cola ao rosto.







Eu fermento e me contorço,
a partir dos bagos pisados.







Eu sou o filho mal-gerado,
que bebo e copulo bebo e copulo
bebo e copulo e bebo, sem fim,
para compensar a falta de amor
do ato que a mim
me gerou.







Eu sou o filho do
estupro.







Eu sou o pária exilado em mim,
e tenho sede de amor.







Por isso bebo e copulo bebo
e copulo e bebo, e a máscara
me cola ao rosto, compacta,
sem alívio.







O meu caminho é cheio de
escolhos, o meu vigor e meu
amor próprio, sem o álcool,
são tais quais o movimento
ondulatório de um peixe morto
e o desejo sexual de um defunto.







Sem febre e fogo,
eu sou um dejeto.







Que se derrame, sobre mim,
então, o vinho tinto ou o vinho
branco, como o esperma se derrama
sobre o óvulo que era infecundo no útero
murcho, mas que inchou ao sofrer abuso.







Porque bebo, eu
posso!



Porque bebo, agora
vivo!







E parece de menos que eu prossiga
como um ébrio se assim existo,
ao menos.







Se não gosta disso,
dê-me, então, uma
escolha, ou um gole,
dê-me um copo ou
um colo onde eu
me encolha,







dê-me olhos que me tirem
o véu que nublou o mundo.







O mundo já tão nublado por
bruma véu gaze febre e fome,
por um cortinado em torno de
um berço abandonado.







Dê-me um gole!
Somente mais um gole!
Eu estou aqui pra te dizer que
estou aqui,cambaleando, mas
de pé.







Quisera eu nunca ter sido
pra não te constranger na
hora do teu casamento.







Eu vim aqui pra te dizer
isso.







Eu vim aqui pra me casar
com você.






Salve-me de mim, se por acaso
podes.







Eu já não sei o que fazer.
Tente me compreender
quando insisto que, para
mim e por mim mesmo,
não encontro meios. Só
por Cristo, e por você,
talvez.







Eu vim aqui para dizer
que não sei se posso,
sóbrio.







Eu vim aqui para dizer
que me assusta o ócio,
ainda que eu nada saiba
fazer.







Respeite o meu desejo
de silêncio, que reside
e dorme bem no meio
do meu medo de ouvir
o silêncio entre os teus
seios.







Eu vim aqui para dizer
que estou aqui, ainda
que pareça alheio,
bárbaro, nômade,
errante, estrangeiro.







E sou.







Mas quero te dar um lar
e dá-lo a mim.







E devo ser, talvez, mais
do que esta máscara de
bêbado, ainda que,
quando a tire
de mim,
eu nada
me saiba.







Mas eu estou aqui,
tremendo dentro de mim
mesmo,essencialmente três:
palavra, alma e
máscara.







E eu vim aqui pra te entregar
meu medo, junto com a aliança
que perdi no caminho.







Esse medo expresso nos meus
olhos baços, que te parecem
lindos, que você acha lindos
quando eu não
bebo.







Mas ontem e hoje e sempre,
que eu me lembre, eu bebi
e copulei e bebi e copulei e
bebi e copulei,







para sentir uma nesga
do amor que, talvez,
esteja em
ti.







Mas ontem te traí,
devo dizer,
aqui.







Por isso, releve a minha
embriaguez, pois te confesso
em público o erro, nessa centésima
trigésima vez, nesta hora em que expresso
todo meu arrependimento e minha fraqueza,
de joelhos.







Eu sou o mendigo,
você a senhora
de meu destino.







Eu sou o exilado
em toda terra que
piso,







o bandido,
o arlequim,
o bandoleiro,







o trágico,
o palhaço.







Eu sou o outro filho de Dioniso,
o que implode em vez de disparar
tiro.







Eu sou aquele que sofre e faz sofrer,
sem encontrar gozo ou alívio.







Eu sou o pária expulso do corpo e do
riso.







Eu sou o meu desgosto o teu desgosto
aqui expresso, de joelhos, patético,
farsesco, fraudulento, estrangeiro
para ti para mim para os outros,
em meu próprio
casamento.







Eu me contorço e fermento,
copulo e bebo e copulo e te
traio e copulo e bebo, mas
não me contento,
nem me conforto.







Eu sou um outro de fora
que veio habitar o dentro,
e não foi aceito.







Meu ponto fraco é inteiro,
e eu mesmo sou pedaço.







O que eu seguro me escapa pelos
dedos, como a aliança de casamento
que eu perdi, a esmo, no caminho.
Porque nem sigo reto, porque me
inclino sempre à direita, como um
escritor que está ficando
cego.







Eu sou um rosto a ser descoberto
por tuas mãos, por teu beijo, por
teu afeto.







Eu sou um ébrio que pareço um
encosto,







um mendigo que pareço pedir
teu sacrifício e tua falta de
sono pra me esperar
chegar enquanto
nunca amanhece,
quando o sol se
esquece de
acordar.







Eu te trago a dúvida







Eu faço dívidas.







Talvez seja essa a outra
coisa que te aterrorize
além da aliança que
deixei cair. Eu faço
dívidas, e você
não quer
dividir.







Em contrapartida,
quando eu empresto, não
me pagam. Eu sou tido por
desonesto, quando sou fraco
e desonesto.Os dois. É mais
complexo.Eu sou o negativo
do que pareço.Mas não sou
vingativo.






Eu não atiro, eu não machuco,
eu não lincho, eu me desmancho
e cedo,e choro à beira da sarjeta
e do abismo, e prometo aos que
passam o que não tenho.







E chamo de amigos,
porque os quero amigos,
os que não
conheço.







Eu conto história de um
passado que eu invento,
talvez pra parecer um outro,
completamente outro, eu que
sou sombra, elmo e
escudo.







Eu que sou roto, quase
afogado em álcool.







Eu não tenho critérios,
eu não tenho os meios,
eu não sei ler os instrumentos
aéreos para me sentir elevado quando bebo,
para me sentir inspirado leve alado enlevado
com o fogo que, em mim,
fermenta.







Eu sou balão à deriva,
sem bússola, sem pára
-quedas.







Eu sou o herói pára-raios
sob a chuva, o filho frágil
que não se sustenta,
entregue à
borrasca.







Eu sou luz lilás, mas nefasta,
coberta com crosta negra,
calcinada.







Eu ofereço espetáculo
gratuito, quando tropeço
na calçada, quando peço
um troco ou
um trago.







Eu estraguei a vida de muitos
e a minha própria.







Eu me dei a mim mesmo como
oferta inóspita.







Cantam contam cantam a minha
história a minha ânsia a minha perda
no coro da tragédia
grega.







Eu sou o que vaga entre os mortos, em
vida.







Ainda assim, eu estou aqui para dizer
que estou aqui mesmo, para dizer que
sim e que te aceito, mesmo tendo
perdido nossa aliança de
casamento.






Faça-me potável, não mais ébrio e
sujo, faça-me querido, faça de mim
sair um homem inteiro, o homem bom
que possa estar embutido.







Faça-me sorver teu sim como um remédio,
e salva-me de mim mesmo,
e me dá abrigo.







Dê-me a carne e o pão, dê-me a tua carne e
me tire o vinho, pois não sei ser são sorvendo
fogo não sei adoçar o fogo alisar o fogo acariciar
o fogo amansar o fogo que me dói por dentro.
Sopra, então, em mim o teu alento.
Mistura um pouco do teu vento
e do teu óleo bento no meu beijo
azul noturno.







Eu sou um ébrio e eu me contorço
e fermento e existo como um escolho
como obstáculo na vida dos que eu
escolho.







Abra o olho, meu amor.Ou melhor,
feche os olhos pro meu beijo escuro.
Nem eu mesmo sei bem o que quero.







Eu sei o que não posso. Eu sei como me
pareço: como novilho ou lobo preso no
emaranhado espesso de arbustos com
espinhos negros.







Eu me pareço assim, sozinho, mesmo
com você.







E ainda que eu queira e teime e trema
e me exprema e me ajoelhe, sinto que
você não poderá dar jeito nesse meu
fundo vermelho sobre negro.







Eu sou complexo em mim mesmo,
vermelho azul e negro. Nigérrimo.







Eu sou o pária dos párias,
um cão mordendo um pedaço de
madeira.






Então, não se case! Acorde!
Enterre-me ali mesmo, ou
deixe-me à beira do abismo,
e não deixe de plantar por perto
um cepo de videira!







E que todas as montanhas sejam
minhas!







E que não haja mulher que me queira!







Vou-me embora a pé, andando em curvas,
como cheguei. E te peço, por mais que te pareça
estranho: não me procure mais, me esqueça!
Eu estarei chorando girassóis como sempre fiz,
na sarjeta.






Você não me quer mais,
porque não me quer
bêbado. Eu sinto.
Vejo nos teus olhos,
tens medo do vinho
e do absinto.







Você não pode comigo.
Não creio que jogue a corda no
fim do poço sem fim sem cair junto.
Nem que possa tocar alcançar a dor
que mora em mim como um filho
dorme ao
relento.







Você não pode comigo, para viver ou
morrer comigo, de joelhos, com o punho
fechado sobre o peito, rezando aos monstros
do caos primeiro. Não podes me acompanhar
na noite de mim mesmo.
Eu não creio!







E cuspo aqui no chão, agora, em frente ao altar,
para expressar meu desprezo por tua compaixão!
Pode você suportar um eclipse do sol com o olho aberto?!






Duvido!







Deixo-te aqui! Cala-te! Pára de chorar!






Pode você aplacar os poderes do inferno,
sem se deixar fulminar?!







Eu sou o bago pisado da uva negra,
e o peso do pé que me pisou você
não suporta,







nem dividir minha ânsia, meu andar
-sem-saber, meu frio que não encontra
calor, meu calor que nunca amansa.







Duvido! Quem é você?! Pote de
lágrimas e náuseas com presunção
de Madre Teresa, ou Nossa Senhora?!







É você divina ou metade divina, ou é
metade vermelha verme e azul noturna,
como eu sou inteiro?!







Você não pode seguir em paz com satanás
do seu lado. Você não é santa, não me engana.
Não se faça de ingênua à cabeceira de minha cama.
Quando eu te conheci nem virgem mais era, nem fui
eu que te fiz mulher! Como perdoar você, me diga?!
Como me perdoar por querer me casar com você?!







Só indo embora...







Eu devia estar bêbado quando te
encontrei na noite virulenta sem luz e sem fogueira.
E eu já quase estava a me comprometer com você,
com tuas ambivalências, com tua prepotência,
com tua arrogância de imaginar poder salvar
alguém. Teu lugar é o da pergunta, e não o de
me dar respostas, cadela imunda e presunçosa!







Eu sou teu rei, mesmo ébrio, porque te faço
parecer boa e sã e boa, quando o que tu sabes
fazer mesmo e de melhor é dormir com os
meus amigos e com os que me desprezam!
Então, diz pra mim, como amar a ti?!
Pedes muito a mim, que mude. Eu,
refugo de mim, desde a origem.







Minhas costas doem, meu estômago
chora e enjoa, mas quer mais um gole.
Só mais um copo ou dois. Prove agora
que me ama, saia daqui e me acompanhe!
Beba comigo, mesmo que seja só por mim!
Duvido, manequim de Madre Tereza!







Duvido que possas comigo, sempre em
metamorfose, como Raul Seixas, sempre
fora de mim e mutante para me sentir mais
vivo! Você é frágil, tola, arrogante, jamais
teria sobrevivido ao fogo que eu bebo!
Eu conheço o vinho! Eu conheço o
sofrimento!







Você conhece a mim e o arder sem fim
de um desejo inquieto?! Duvido!



Tenho pena de ti. Pena não, tenho nojo!
Não serei o teu escravo, só porque
te fecundei por acaso! Queres me
aprisionar? Quer me aprisionar
no teu calabouço? Na tua vida
de repouso, enfado, banho,
jantar e
almoço?







Eu sou bêbado, mas não sou cão
para se adestrar, nem sou esse feto
que você carrega por não ter coragem
de tirar! Não é amor, é medo!







Você é a escória que quer me escorar!







Mas eu te escorraço agora! Porque sei que você
tem nojo do seu filho, tanto quanto eu tenho nojo
e desprezo por vocês dois, e de mim mesmo.
E você também tem nojo e medo de mim,
não me negue, vejo no teu rosto!







Está aí exposto, na frente do padre e de
todos! Não se ausente, não seja covarde
como eu tenho sido, antes que seja tarde!
Confronte-me! Confronte-se comigo!







Se me ama tanto assim, corra atrás de
mim sem se desesperar! Não aceito
mulher sem postura! Eu sou bêbado,
mas tenho os meus critérios!E você não
pode comigo, nem com o que eu sinto e
vejo. Você não pode suportar os cem
cavalos negros de São Tomás de Aquino
com seus cascos cinzentos, que cavalgam
sob o céu e sobre o vento, você não pode
com esse galope de cem cavalos coriscando
raios,ainda mais que está grávida! Você não
suportaria os raios, nem o sol negro, nem o
olho mau de Deus, nem tudo o que eu conheço,
sem sentar numa cadeira deitar-se numa cama
e pedir
arrego!







Você não aguenta o galope de cem cavalos
irados sobre a cabeça!Então reconheça e se
despeça. Vou-me embora! Eu que sou três:
copo, palavra alada, e alma. Eu que sou três,
também: sombra, escudo e
elmo.







E se me despir,
será longe
daqui.

domingo, 1 de março de 2009