quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

MARCELO NOVAES

TAMBÉM SOU OITO



MARCELO NOVAES









Para minha surpresa - e para surpresa
minha -, ele não me dirige sequer palavra
quando nos sentamos frente à frente. Olha-me
nos olhos e mimetiza várias de minhas faces
- aquelas duzentas e doze -, e muitas das
posturas que acompanham as linhas
que trago no rosto: as linhas que
costurei para mim mesmo.




Para minha surpresa - e para surpresa
minha -, ali estão elas: bem mimetizadas
e sucintas, agora transtornadas em sua face
mais branda. E o que eu experimento já não
é surpresa, mas uma espécie distinta e ilesa
de curiosidade. E pequenas reações posturais
acompanham minhas reações mais íntimas
ao me ver tão bem descrito e moldado no
rosto que não sou eu mesmo.




E eu me atrevo a algum movimento, sem
peso. Logo me sou devolvido ao corpo fixo.
Se tenho pressa e me inclino - por exemplo -,
ele me toca no ombro direito, na hora mesma
em que intento mover-me daquele jeito. Sem
nada dizer nem dizer nada, seu rosto expressa:
“sei como tu és e como reages a você; desde
lá atrás, eu te sei”.




Sim, sabe. Porque o faz de forma contínua,
sem sequer pronunciar sílaba que seja. O tempo
parece se distender pra trás pra frente pra dentro,
fazendo-me presente e presentificado no ambiente,
e ao mesmo tempo projetado em tela grande atrás
dele - de plasma -, do tamanho de um estádio de
rugby.




Para surpresa minha - e pra minha surpresa -,
levanto-me, ancorado, sem sair da esteira - nem
ele do estrado -, e sigo ao mesmo tempo a oito
direções da estrada rarefeita - enquanto me vejo
em tela plana de plasma, compreendendo a razão
e o significado de cada gesto mínimo meu. Feixe
de sentimentos são ossos, músculos, ângulos de
passos: rápidos, lentos. Lentos, rápidos.




Chego num octógono, num teatro de arena
com oito faces - com oito lados -, e me ponho
no centro: também sou oito. Adolescentes me
entrevistam e me propõem aforismos e laços,
e que eu saia dos transes hipnóticos que
guardaram meus sopros nessa caixa de
músculos e ossos em que me mostro
ao mundo.




Sou oito. E lhes entrego uma súmula de
conteúdos com gestos autênticos.Novos.
Decifro-lhes os aforismos como certezas
e belezas presentes em mim mesmo.




Suas idades somadas recaem sempre
em oito. Também sou oito. Todos temos
a nossa quota de gesto e espelho, na vida.
Nada para correr atrás. Nem apressar a
saída deste Teatro de Arena.

3 comentários:

Mirse disse...

Que beleza de poema, não é, Wellington! Adoro ler Marcelo Novaes, tenho uma prateleira lotada dos poemas que imprimo, mas é tão bom quando é você que escolhe. Parece que tem outro sabor!
Tem um desafio para você no meu blog. Se não quiser, não precisa fazer, mas eu gostaria. Precisa ver como o nosso Recife ficou pobre...pobre na minha postagem.

Beijos

Mirze

Marcelo Novaes disse...

Hummm...


Gostei desse meu poema aqui.

Com fundo branco. Tudo luimpo. Clean.

Muito elegante.


Obrigado, Wellington!



Abração,





Marcelo.

WELLINGTON GUIMARÃES disse...

MARCELO,

ESSE É UM DAQUELES QUE ME FUGIAM, SEM QUERER ACHEI-O. E É LINDO!