quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

MARCELO NOVAES

http://olugarqueimporta.blogspot.com/2008/05/noite-em-norte-dfrica.html



NOITE EM NORTE D'ÁFRICA






Joguei a estrela prata
no rio que passava
atrás da porta,





no córrego ao rés
da rua, rente à
guia,





no filete d'água
suja que corria,





e nem ela mais
brilhava,





a estrela que tirei
de tua orelha esquerda,
na noite fria em norte
d'África.





(Dos animais ferozes
éramos os mais...).





Joguei a estrela longe de casa,
bem sei, longe do algar, longe
da praça principal longe da
fonte, quando já era
longínquo o mar e
ínfimo o
céu.





Joguei-a quando não mais
havia afago lágrima calor
cuidado, veludo lustre ouro
calafrio, música nos olhos,
piano nas pálpebras,
pássaro nos dedos,





e quando escorria-nos
da memória os poemas
lusitanos que tanto
amávamos:





Pessoa, Pessanha.
Cesário Verde.
Vieira Calado.




Calamo-nos.




Tornamo-nos árvores
fincadas em solo
africano,






separadas por um
palmo, sem braços,
sem galhos,





nenhum dos dois se
lembrando do que
agradava ao outro,
nem sabendo nos
olhar nos
olhos.





Tornamo-nos, ambos,
desviados, caolhos,
fraturando a única
estrela inteira que
luzia no céu inteiro,





naquele mar índigo
infinito africano
infinito,





que pairava infinitamente
acima do antigo e morto
amar tanto que já não
mais sabíamos.





Tornamo-nos
dois.




Divididos.





Quebramos as pontas
da estrela ilhada que
partiu-se em duas
metades inteiras,
caídas atrás de
nossas costas.





Viramo-nos,
idos um do outro,
definitivamente.




Pra nunca mais.
Pra sempre.





Naquela noite triste
havida em norte
d'África.



Um comentário:

Mirse disse...

Nossa! Lembro quando pela primeira vez li esse poema. Passei a noite em claro pensando nas duas árvores fincadas. Sou idiota, eu sei. Não precisa me dizer, mas o que não sei é porque isso me emocionou. Talvez pelo inesperado.

Belíssima escolha, Wellington!

Beijos, amigo

Mirze