sábado, 28 de fevereiro de 2009

MOACY CIRNE

O LIVRO DOS LIVROS
(5)
Texto estabelecido por
Domingos Bouzon Garmus & Luís Pereira Ramos

A história de Zeferino Cabeção, o Profeta

E os homens se multiplicaram. Multiplicaram-se os homens. E eis que, de Serra Negra, nas proximidades de Caicó, surgiu Zeferino Cabeção, descendente de Ribamar, Toré e Biró, Piromba, Jorginho e Alberi Goleador, Peri das Oiticicas, Dinarte Matrícula e José Lucas do Serrote. Zeferino Cabeção, ao completar 69 anos, vendo que os homens viviam uma vida muito chata, e acreditando nas Palavras do Senhor das Alturas, resolveu chamá-Lo para uma conversa de homem para homem, de cabra macho para cabra macho.

O Senhor das Alturas disse então a Zeferino Cabeção: "Sai de tua terra, de tua parentela, menos a esposa e as filhas, da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei. Farei de ti um grande povo e te abençoarei, engrandecendo teu nome de modo que se torne uma benção e um Profeta, o primeiro entre os primeiros, o primeiro entre os mais puros, o primeiro entre os seridoenses".

Mas Zeferino Cabeção respondeu-lhe: "Que eu seja um Patriarca, tudo bem... Mas Profeta? O Senhor ficou lelé da cuca? Não teria perdido o juízo não, Senhor das Alturas? Toda essa eternidade sem a menor graça deve lhe fazer um mal danado. Afinal, Profetas serão Isaías do Mundo Novo, Jeremias das Lamentações, Ezequiel da Solidão, Daniel da Pedra Lavrada, Jonas da Baleia Branca, Zacarias de Timbaúba, Malaquias de Jucurutu, Gentileza da Praça Quinze. Serei Patriarca - e ponto final - como patriarca será Moisés o Libertino. Não profetizarei que o Brasil perderá a Copa do Mundo de 50 em pleno Maracanã. Não profetizarei que o Cinema Nordeste, na Cidade dos Reis, será inaugurado em dezembro de 1958 da Era Comum. Não profetizarei que o homem conquistará a Lua no final dos anos 60 e que haverá, entre os jovens, um movimento chamado contracultura. E que, bem antes, haverá uma mulher revolucionária de nome Rosa Luxemburgo".

E mais disse: "Não profetizarei que As pelejas de Ojuara, livro escrito por um descendente dos tapuias, causará sensação. Que Eu Sou o Senhor da Cruz e Chiquim de Assis serão homens generosos e compreensivos. Que, em política, a direita será truculenta e a esquerda, ingênua. Que o racismo, o fascismo e o pseudomoralismo serão a expressão maior da intolerância e da doença mental. Que Assuntina das Amérikas será um filme incompreendido. Que o Senhor será questionado pelos cientistas do futuro. E mais não direi; não sou profeta, nunca fui".

E o Senhor das Alturas disse: "Homem, deixe de lengalenga e frescura, não importa se profeta ou patriarca, vá pegar sua trouxa e procure o seu destino a ser por mim indicado. E também, pelo sim pelo talvez, não seja um besta de cagar rodando. Quem avisa, amigo é". E Zeferino Cabeção partiu, como o Senhor das Alturas lhe havia dito, rumo ao Vale do São Francisco, na terra compreendida entre Pernambuco e Bahia. E o Senhor das Alturas apareceu a Zeferino Cabeção e lhe disse: "À tua descendência darei esta terra, mesmo contrariando alguns latifundiários poderosos".

Para evitar conflitos com os donos da terra, Zeferino Cabeção fez com que sua mulher se passasse por irmã e a eles se entregasse de corpo e alma. Houve porém uma grande seca na região, que durou 4 anos e 77 dias, a todos prejudicando. E Tonico Carlos Beleza, governante das terras baianas, e outros proprietários, supersticiosos, acharam que a culpa era dele, com aquela mania besta de adorar um só Senhor. Aconteceu, pois, que ele e sua família foram expulsos pelos capangas do poderoso Tonico para mais longe ainda, para as minas interioranas dos campos gerais, território governado por Riobaldim Diadorão, que gostava de enfrentar o Astucioso no meio do redemunho e passava o tempo todo a exclamar: "Viver é muito perigoso! Viver é muito perigoso".

E o Senhor das Alturas a todos cubava. E as alianças se faziam. E os nascimentos se davam. E as promessas se concretizavam. E as tentações se sucediam. E a cada novo baião-de-cinco mais e mais Zeferino Cabeção mostrava o seu valor de patriarca e cabra da peste. E aconteceu que Zeferino Cabeção arrependeu-se de sua vida devassa, orou com sincero fervor, e voltou, com sua mulher e suas duas filhas, para o Vale do São Francisco. A seca já acabara; torres alegravam os horizontes. As auroras pareciam mais cristalinas do que nunca.

Em lá chegando, Zeferino Cabeção procurou abrigo entre duas cidades, às margens do Rio do Chico, conhecidas por Axé Musiqueta e Gonorréia. Seu povo vivia na maior putaria: para todos os lados era possível encontrar uma, duas, três chibateiras, puaras das mais atrevidas, assim como homens rapariguentos de todas as espécies. E Zeferino Cabeção mais e mais orava. E o Senhor das Alturas continuava cubando. E não gostava do que via.

Um comentário:

Mirse disse...

Este texto é maravilhoso!
Moacy é um gênio! Um grande senso de humor lhe foi dado e ele o usa muito bem!

Parabéns, Wellington pela escolha do texto

Abraços

Mirze