domingo, 3 de maio de 2009

MARCELO NOVAES




VOU  TE DAR TRÊS CHANCES. ESSA É A PRIMEIRA. 
EU NÃO PRECISARIA MAIS QUE ESSA, MAS VOU TE DAR MAIS DUAS.
LEIA ESTE POEMA E VEJA O QUE ACHA.
SÃO DE AUTORIA  DE MARCELO NOVAES.


VELUDO AZUL







Você amava e defendia

as cores contra o cinza.



[Era seu modo de amar

o amor e me amar ainda].



Você defendia os gritos das
crianças e os trajetos
 dos
automóveis 
[com música
alta,
 em direção às praias
longínquas].



[Era seu modo de amar

o amor e amar a escolha].



[Você amava e defendia
as cores contra a única
cor].



Você preferia e amava

o gol-feito-por-acidente,
preservando o jogo de
seu parâmetro [e de 
sua
 regra mais 
evidente].




Tua defesa do amor
é visível e nunca foi
cega.



É como a defesa do pintor
de certas cenas a óleo ou 
aquarela, 



de um alce que corre de um
jeito estranho [pelas savanas],



dos tigres rugindo [nas selvas
espessas, africanas],




você era a defensora da crua
natureza contra a destreza da
cultura.




Por isso eu te amava [e te amo]

como se ama um par de asas

se abrindo [se despedindo] ao 
lugar-sem-som [veludo azul 
marinho].



VOU  TE DAR TRÊS CHANCES. ESSA É A PRIMEIRA. 
EU NÃO PRECISARIA MAIS QUE ESSA, MAS VO UTE DAR MAIS DUAS.
LEIA ESTE POEMA E VEJA O QUE ACHA.













AI VAI A SEGUNDA:




Fio na ponta de mil braços




Olhei fixo pro sol.



Decidi traçar um
percurso horizontal,
sobre minha terra
natal.




Procurei por régua e
esquadro, por alguma
referência no espaço,
pontos fixos no céu
e alguma coisa em
torno.



Eu precisava de um
fio.



Precisei de um fio, precisava
de um fio e de fé, um fio-de
-confiança, confiei em Frei
Galvão em Frei Damião em
Frei Antônio, segurei o fio
que um dos três me sugeriu,
- segurei em segurança,
como que preso a uma
estrela, qual fosse eu 
mago rei em minha
própria trajetória.



E o meu ver passou a ser,
aos poucos, um eleger de
onde colocar meu olho,
e pra onde arrastar
meus pés.



E de como seguir
sem ficar louco.



E de como permanecer
de pé, segurando o fio
sem ver.



Enfim, eu podia ver e seguir
o pássaro do frio, mas não o fio,
e eleger onde colocar meu ver e
pra onde arrastar meus
pés. Eu podia escolher.



E o meu ver passou a ser
marcado por manhãs cindidas
dentro de um só amanhecer,
passou a ser uma condição de
matizes destacados de luzes e
sons, claridades e gritos,
pleitos e preitos de
gratidão, 



aglutinações e focos
afetivos.



Esse era esse foi meu ver
-sem-ver ligado ao fio-da
fé que salva do abismo, da 
ânsia extrema e sempre
ânsia pelo horizontal
infinito,




que finda, enfim,
de querer mais e outra coisa,
e sempre a maior metade, e 
outra coisa a mais, e mais
outra, e a infinita
variedade.



O fio me segurava e eu me
fiava por saber-me sempre
em trânsito, longe de casa.
Mas compelido ao chão.



A princípio, ofendido, rejeitado,
mas sempre compelido ao chão,
enquanto não criasse
asas. Sempre, por
enquanto.



Devolvido aos pés e ao frio
piso de granito, em definido
e finito
trajeto.




Sem ficar assustado
com isso.



Pois eu tinha o fio,
eu podia seguir o fio sem ver.
Eu podia ver e seguir o pássaro
do frio e eleger onde colocar meu
olho e meu ver, e pra onde arrastar
meus pés.



Eu podia escolher.



E o meu ver passou a ser marcado
por manhãs noites e trovões,
matizes de luzes e sons,
claridades e gritos,
aglutinações e focos
afetivos.



E eu rezei muito.




Rezei como quem
escapa de um quadro
de Hieronymus Bosch
até um bosque sagrado,
curando-me do susto e do
enfado de estar no mundo
girando em
círculos.



E eu segurei o fio como quem
segura um rosário indiano,
qual fosse eu um monge
indiano,



e fosse o rosário a réplica
do fio que eu sempre
segurara,




o fio transparente que eu não
largava e não enxergava,
mas que me segurava
que me vinculava ao
céu.



E eu segurei o fio transparente fio
como o monge indiano segura o
japa mala, o rosário indiano,
recitando mantras enquanto
eu recitava meus versos
brancos,




e meu olho procurava por
nesgas e poças de
beleza por detrás
das pedras, além
das pedras, no
seio mesmo
das perdas.



E eu era como a gota
d'água presa pela
boca,



como o peixe morde
a isca lançada por
Cristo e por seus
amigos.



O Amor compassivo de mil 
braços - e um olho em cada 
palma-, me alcançou, e eu 
fui fisgado.





NÃO FOI FISGADO?
AI VAI A ÚLTIMA CHANCE.



Ao Maldito-Eleito














Sabe o que é ser Proscrito?!

Eu abro agora uma Fenda entre
teu pé e meu Olho. Intransponível.
E te alijo para longe de minha Bênção
e deste Alívio que experimentam os
que conhecem, de Mim, a Branda
Voz e o Infindo Alento.




A Bênção, só assinalo pra que 

Conheças, a fundo, o seu Oposto.
Esse é o Bocado que, para ti, Escolho.
Que saias de minha Orla, como Adão
Expulso, como Ashaver, como Onan,
como Salomé, como Lilith e Outros
Parvos.




Não são parcos os meus Recursos.

Movo Céus e Terras e cuspo Raios.
Sim, sei que te dei um monte de
Brinquedos, e que Deles fazes Mal
Uso. Já estava previsto em meu
Propósito, desde o Início. Já
Sabia de teu Barro, de teu 
Apego aos Vícios. [Trinta
Mil e Quinhentos, pelos
Cálculos de Meus Bons
Anjos. Os Maus que te
Persigam]. 




Segue, pois, em Paz, como
Estes que te Antecederam nesse
Meu Discurso Breve e Preclaro. 
Claro que ainda não morreram: 
seria Castigo muito Singelo. 




Vivem a esmo, ignorando, 
do mais Fundo, os Reais 
Perigos. Mas, dentre os
Tantos Anjos Maus, os
esperam Bons Amigos.

E AGORA?

2 comentários:

Mirse disse...

Sem comentários!

Ao ler esses poemas molh´-se o teclado com lágrimas verdadeiras que surgem sem pormos retè-las.

O primeiro poema, me emocionou além do devido.

Li os outros dois com os olhos marejados, e não me concentrei.

Volto depois.

Você também sabe amar o amor e amar a escolha, no caso as escolhas certas dos poemas de Marclo Novaes.

Beijos amigo querido!

Mirse

YaRa disse...

Realmente...eu só precisei da primeira ...