segunda-feira, 5 de outubro de 2009

UM MENINO AUGUSTO.





Ano passado escrevi um texto sobre lu e Denis, que perderam um filho. Dia 20 fará um ano que o bebê deles se foi. Não me contenho, apressado que sou, falo do que não posso, nem quero calar. Esse será um texto sentimental, triste não, eivado de sentimentos, e já comecei bem, segundo minha irmã, a qual começar bem implica começar chorando.
Durante esse ano me envolvi com a morte desse bebê, não entendo o porque, ou o porque de tantas lágrimas por um ser que sequer conheci. Não sei explicar, mas vou tentar.
Toda dor materna me dilacera, por ser uma coisa que não posso sentir, e o que não posso sentir, por impossível, sinto na fantasia de um poeta, ou no olhar de uma mãe que perdeu um filho.
Quando vi a expressão de dor de uma amiga no MSN, desabei. Sou muito atento a expressões, olhares e risos ou choro.
Denis eu já conhecia, lu não. Então minha irmã me pediu um texto que deveria ser consolador. Não imagino como consolar um casal que perdeu um filho, então no texto pedia que chorassem e não tivessem vergonha. Mas o que me chamou atenção não foi o choro de lu, foi o de Denis. O choro de de uma mãe, quando da morte de um filho, é tão esperado e normal que não causa estranheza, é inexorável. O do pai não. É normal que ele chore, mas não desavergonhadamente, despudoradamente, como um menino. Admirei o choro dele, admiro o chorar dos que perdem e não choram contra o mundo, choram como poetas, choram não pelo que receberiam, mas pelo que dariam, não por egoísmo de querer para si, mas pelo que poderiam doar de si, subtraindo amor de si, e, numa impossibilidade exata, mas o que se sucede com nós, humanos, subtração que multiplica, que soma, que expande, que excede. Subtrair amor de si, dando-o a outro ser, sem qualquer interesse nos faz imensos, nos faz gigantes.
Chorei muito, ouvindo a mãe desconsolada me falar do filho, tive vontade, juro, de poder trazer de volta o menino, não me envergonho disso. De dizer isso.
Disse que havia me envolvido com a morte do menino. Não, não houve isso. Para mim, o menino de vocês nunca morreu, é vida. Não faço demagogia, falo o que sinto, e o que sinto é isso. Chorei pelo Augusto de vocês, choro ainda. Uma vez disse a Denis que ia à igreja preencher vazios. Não menti. Onde vou, ao mercado, ao portão, ou mesmo onde tenho medo de me perder de algo bom, vou para preencher vazios. Vou para fugir de algo ruim de mim. E o menino de vocês (lu e Denis), me deu paz, me deu descanso. Por isso falo dele, por isso chorei e choro por lembrar as lágrimas de vocês, porque sou grato a quem me deu a mão.
Dia vinte seria aniversário do pequeno Augusto. Será doloroso para pais. Mas se consolar não posso, posso lembrar que a morte ficou para todos, a vida depois dela só para os escolhidos. Tenho consciência que não serei um, mas o filho de vocês será.

2 comentários:

Mirse Maria disse...

Well. nesta prosa poética, você coloca numa construção magnífica o sentimento, a "ANIMA" existente dentro de nós.

No seu caso, o sentimento sobrepuja o fato narrado.

Lembro bem desse dia, embora já amigos de longa data, não conhecia esse seu lado humano, que hoje percebo fluir rm você com qualquer ser que sofre, como a menininha da escada.

Isto é a presença de Deus.

Muito maior do que a minha. Ajoelhar e rezar é fácil. Demonstrar sentimentos da maneira como faz, não é para qualquer um.

Por isso respeito seu modo de agir e pensar.

Aproveito e me confraternizo espiritualmente com Lu e Denis.

Deus leva para si o melhor entre nós.

Beijos

Mirse

Lu disse...
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