quinta-feira, 2 de abril de 2009

O 11º MANDAMENTO

QUANDO WELLINGTON NOVAES QUIS COLOCAR SHAKESPEARE COMO 11º MANDAMENTO, ALGUNS NÃO GOSTARAM. O FATO É:
O CARA É ASSUSTADOR.
DISSERAM QUE DEPOIS DE DEUS FOI O QUE MAIS CRIOU.
FATOS, VAMOS A ELES:
NÃO EXISTE EM TODA A LITERATURA BRASILEIRA, UM ÚNICO LIVRO QUE SE POSSA COMPARAR COM O PIOR LIVRO DELE. TROCANDO EM MIÚDOS: O MELHOR DO BRASIL( FALO DE LIVROS)PERDE PARA O PIOR DE SHAKESPEARE.
QUALQUER PERSONAGEM DO BARDO, NÃO FALO DOS GRANDES, FALO DOS SECUNDÁRIOS, FALA, PENSA, ARGUMENTA, COMO UM GÊNIO.
OS LIVROS DELE SÃO OS MAIS DENSOS QUE JÁ FORAM ESCRITOS, MAS ATÉ UM IDIOTA COMO EU ENTENDE. AO PASSO QUE JOYCE, QUE NÃO CHEGA A LAMBER OS PÉS DO BARDO, ESCREVEU UM QUE MEIA DÚZIA DE ILUMINADOS LERAM, NUNCA RELERAM, MAS DIZEM QUE É ESPETACULAR. HAMLET EU JÁ LI UMAS 20 VEZES.
POR ESTÁS E MUITAS OUTRAS RAZÕES, SHAKESPEARE FOI O MELHOR.
MELHOR ESCRITOR, COMO PESSOA NINGUÉM SABE MUITO SOBRE O CARA.
SEGUE ABAIXO UMA CENA DE "HAMLET", ESSE SIM, O LIVRO DOS LIVROS. QUEM TEM OLHOS PARA VER. VEJA.


































Um cemitério. Entram dois coveiros, com alviões e pás.

PRIMEIRO COVEIRO: Poderá ser-lhe dada sepultura cristã, se foi ela quem procurou a salvação?
SEGUNDO COVEIRO: Digo-te que sim: por isso, trata de abrir logo a sepultura; o magistrado já fez investigações, tendo concluído pelo sepultamento em chão sagrado.
PRIMEIRO COVEIRO: Como assim, se ela não se afogou em defesa própria?
SEGUNDO COVEIRO: Foi o que decidiram.
PRIMEIRO COVEIRO: Então foi se ofendendo; não pode ter sido de outro modo, que o ponto principal é o seguinte: se eu me afogar voluntariamente, pratico um ato; um ato é composto de três partes: agir, fazer e realizar. Logo afogou-se porque quis.
SEGUNDO COVEIRO: Mas ouvi, compadre coveiro...
PRIMEIRO COVEIRO: Com licença. Aqui está a água; bem. Aqui está o homem; bem. Se o homem vai para a água e se afoga, é ele, quer o queira quer não, que vai até lá. Toma nota. Mas se a água vem para ele e o afoga, não é ele que se afoga. Logo, quem não é culpado de sua própria morte, não encurta a vida.
SEGUNDO COVEIRO: E isso é lei?
PRIMEIRO COVEIRO: É, de acordo com as conclusões do magistrado.
SEGUNDO COVEIRO: Quereis que vos seja franco? Se não se tratasse de uma senhorinha de importância, não lhe dariam sepultura cristã.
PRIMEIRO COVEIRO: Tu o disseste; é pena que neste mundo os grandes tenham mais direito de se enforcarem e afogarem do que os seus irmãos em Cristo. Dá-me a pá. Não há nobreza mais antiga do que a dos jardineiros, dos abridores de fossas e dos coveiros; todos exercem a profissão de Adão.
SEGUNDO COVEIRO: Adão era nobre?
PRIMEIRO COVEIRO: Foi quem primeiro usou armas.
SEGUNDO COVEIRO: Como, se não as possuía?
PRIMEIRO COVEIRO: Quê! És pagão? Como é que interpretas a Escritura? A Escritura diz que Adão cavou. Como poderia ele cavar, se não possuisse armas? Vou fazer-te outra pergunta; se não responderes certo, terás de confessar que és...
SEGUNDO COVEIRO: Pois que venha a pergunta.
PRIMEIRO COVEIRO: Quem é que constrói mais solidamente do que o pedreiro, o carpinteiro e o construtor de navios?
SEGUNDO COVEIRO: O que levanta cadafalsos, porque suas construções sobrevivem a milhares de inquilinos.
PRIMEIRO COVEIRO: Realmente, aprecio a tua vivacidade. O cadafalso faz bem. Mas, para quem faz ele bem? Para os que fazem mal. Por isso, fizeste mal em dizer que o cadafalso é mais sólido do que a Igreja. Logo o cadafalso te faria bem. Vamos, responde logo.
SEGUNDO COVEIRO: Quem é que constrói mais solidamente do que o pedreiro, o carpinteiro e o construtor de navios?
PRIMEIRO COVEIRO: Justamente. Responde isso e sai da canga.
SEGUNDO COVEIRO: Desta vez vou acertar.
PRIMEIRO COVEIRO: Veremos.
SEGUNDO COVEIRO: Com a breca! Não o consigo. (Hamlet e Horácio aparecem no fundo)
PRIMEIRO COVEIRO: Não dês tratos à bola, que o teu asno preguiçoso não andará mais depressa com as chibatadas. Quando te fizerem de novo essa pergunta, responde que é o coveiro, porque a casa que êle constrói dura até o dia do Juízo. Corre à hospedaria e traze-me uma caneca de aguardente. (Sai o segundo coveiro)
PRIMEIRO COVEIRO (canta, continuando a cavar):
Quando rapaz amei, amei bastante
Quão doce me sabia
tudo aquilo! Que tempo! Um só instante
mais que tudo valia.
HAMLET: Esse sujeito não terá o sentimento da profissão, para cantar, quando está abrindo uma sepultura?
HORÁCIO: O hábito facilitou-lhe a tarefa.
HAMLET: É isso; as mãos que trabalham pouco são mais sensíveis.
PRIMEIRO COVEIRO (canta):
Mas a idade, com passo de ladrão,
nas garras me apanhou,
tirando-me do mundo folgazão;
e tudo se acabou.
(Joga um crânio)
HAMLET: Tempo houve em que aquele crânio teve língua e podia cantar; agora, esse velhaco o atira ao solo, como se se tratasse da mandíbula de Caim, o primeiro homicida. É bem possível que a cabeça que esse asno maltrata desse jeito seja de algum político que enganava ao próprio Deus, não te parece?
HORÁCIO: É bem possível, milorde.
HAMLET: Ou de algum cortesão que sabia dizer: "Bom dia, meu doce senhor! Como vai passando, meu bom senhor?" Talvez a de lorde Fulano, que elogiava o cavalo de lorde Cicrano, quando tinha a intenção de pedir-lho, não é verdade?
HORÁCIO: É isso mesmo.
HAMLET: E agora, depois de pertencer a lorde Verme, que lhe comeu as carnes, este sujeito lhe bate com a enxada no maxilar. Se pudéssemos acompanhá-lo em todas as fases, surpreenderíamos nisso uma bela revolução. Levarem tanto tempo esses ossos para se formarem, só para virem a servir de bola! Só de pensar em tal coisa, sinto doer os meus.
PRIMEIRO COVEIRO (canta)
Uma enxada e uma pá bem resistente,
mais um lençol bem-feito
e uma cova de lama indiferente,
fazem do hóspede o leito.
(Joga outro crânio)
HAMLET: Mais um crânio. Por que não há de ser o de um jurista? Onde foram parar as sutilezas, os equívocos, os casos, as enfiteuses, todas as suas chicanas? Por que consente que este maroto rústico lhe bata com a enxada suja, e não lhe arma um processo por lesões pessoais? Hum! É bem possível que esse sujeito tivesse sido um grande comprador de terras, com suas escrituras, hipotecas, multas, endossos e recuperações. Consistirá a multa das multas e a recuperação das recuperações em ficarmos com a bela cabeça assim cheia de tão bonito lodo? Não lhe arranjaram seus fiadores, com as fianças duplas, mais espaço do que o de seus contratos? Os títulos de suas propriedades não caberiam em seu caixão; não obterão os herdeiros mais do que isso?
HORÁCIO Nada mais, milorde.
HAMLET: Pergaminho não é feito de pele de carneiro?
HORÁCIO: Perfeitamente, príncipe; e também de bezerro.
HAMLET: Não passam de carneiros e de bezerros os que procuram segurar-se nisso. Vou dirigir-me a esse maroto. De quem é essa cova, camarada?
PRIMEIRO COVEIRO: É minha, senhor. e uma cova de lama indiferente fazem do hóspede o leito.
HAMLET: Estou vendo que é tua, de fato, porque te encontras dentro dela.
PRIMEIRO COVEIRO: Estais fora dela, senhor; logo, não vos pertence. Enquanto a mim, muito embora não esteja deitado nela, posso dizer que é minha.
HAMLET: Não é certo dizeres que te pertence porque estás dentro dela. Sepultura é para os mortos, não para os que estão com vida. Logo, estás mentindo.
PRIMEIRO COVEIRO: Uma mentira viva, senhor, que voltará de mim para vós.
HAMLET: Para que homem estás cavando essa sepultura?
PRIMEIRO COVEIRO: Não é para nenhum homem, senhor.
HAMLET: Para que mulher, então?
PRIMEIRO COVEIRO: Não é para mulher, tampouco.
HAMLET: Quem é que vai ser enterrado nela?
PRIMEIRO COVEIRO: Alguém que foi mulher, senhor, e que – Deus a tenha em sua santa guarda – já faleceu.
HAMLET: Como esse sujeito é meticuloso! Precisamos falar-lhe com a bússola na mão; qualquer equivoco poderá ser-nos fatal. Por Deus, Horácio, tenho observado que nestes três últimos anos o mundo se torna cada vez mais sutil. O pé do campônio toca tão de perto no calcanhar do nobre, que causa esfoladuras. Há quanto tempo és coveiro?
PRIMEIRO COVEIRO: Entre todos os dias do ano, iniciei a profissão no dia em que o nosso defunto Rei Hamlet venceu a Fortimbrás.
HAMLET: E quanto tempo faz isso?
PRIMEIRO COVEIRO: Não sabeis? Qualquer bobo poderia dizer-vos: foi no dia em que nasceu o moço Hamlet, aquele que ficou louco e que mandaram para a Inglaterra.
HAMLET: Ah, sim? E por que o mandaram para a Inglaterra?
PRIMEIRO COVEIRO: Ora, porque enloqueceu. Lá, ele há de recuperar o juízo; mas se o não fizer, importa pouco.
HAMLET: Por que razão?
PRIMEIRO COVEIRO: É que ninguém se aperceberá disso; todos por lá são tão loucos quanto ele.
HAMLET: E como foi que ele enloqueceu?
PRIMEIRO COVEIRO: Por maneira muito estranha, dizem.
HAMLET: Como estranha?
PRIMEIRO COVEIRO: Ora, perdendo o juízo.
HAMLET:E onde foi isso?
PRIMEIRO COVEIRO: Ora, aqui na Dinamarca. Entre rapaz e homem feito, sou coveiro há trinta anos.
HAMLET: Quanto tempo pode uma pessoa ficar na terra, sem apodrecer?
PRIMEIRO COVEIRO: A la fé, se já não começara a apodrecer em vida, que hoje em dia há muitos bexiguentos que mal esperam pela inumação, poderá durar-vos coisa de oito anos ou nove; um curtidor demora nove anos.
HAMLET: E por que ele mais tempo do que os outros?
PRIMEIRO COVEIRO: Ora, senhor, é que a profissão lhe endurece a pele, tornando-a impermeável à água, que é o mais ativo destruidor do bandido do cadáver. Temos aqui outro crânio, que vos ficou na terra seus vinte e três anos.
HAMLET: De quem era este?
PRIMEIRO COVEIRO: Do mais extravagante louco que já se viu. Quem pensais que ele fosse?
HAMLET: Não posso sabê-lo.
PRIMEIRO COVEIRO: Para o diabo com sua loucura! Certa vez atirou-me à cabeça uma botija de vinho do Reno. Esse crânio aí, senhor, esse crânio ai, senhor, era o crânio de Yorick, o bobo do rei.
HAMLET: Este?
PRIMEIRO COVEIRO: Precisamente.
HAMLET: Deixa-me vê-lo. (Toma o crânio) Pobre Yorick! Conheci-o, Horácio; um sujeito de chistes inesgotáveis e de uma fantasia soberba. Carregou-me muitas vezes às costas. E agora, como me atemoriza a imaginação! Sinto engulhos. Era aqui que se encontravam os lábios que eu beijei não sei quantas vezes. Onde estão agora os chistes, as cabriolas, as canções, os rasgos de alegria que faziam explodir a mesa em gargalhadas? Não sobrou uma ao menos, para rir de tua própria careta? Tudo descarnado! Vai agora aos aposentos da senhora e dize-lhe que embora se retoque com uma camada de um dedo de espessura, algum dia ficará deste jeito. Faze-a rir com semelhante pilhéria. Dize-me uma coisa, Horácio, por obséquio.

3 comentários:

Moacy Cirne disse...

Eis um tema para discussão que ainda pode aparecer (na verdade, já apareceu) n'O Livro dos Livros. Um abraço.

Mirse disse...

Nossa! Emocionante!
Acho que estou emotiva demais. Mas você colheu um dos mais belos , entre tantos. A hora em que ele olha o crânio de alguém que amou, imagina seu riso e quanto mais ainda puder....fez-me cair em prantos.
Por isso você é assim tão sensível. Por isso também seu filho, que adormece ouvindo Jõao Cabral, e um dia entenderá também Shakespeare, tem na fisionomia este ar de criança feliz em sua plenitude.
Essa é a maior riqueza e a maior herança que o lindo Pitocudo verá que um dia seu pai, também foi O MELHOR! E talvez fique na dúvida entre escolher Shakespeare ou àquele que divulga tão bem sua obra. E se fosse um diálogo Sheakespeareano, eu perguntaria:
_Conheces Shakespeare?
_Já ouvi falar...
_ Conheces Wellington Feitosa Guimarães?
_ Sim, esse eu conheço.
_ Então mentes. Porque se conheces ao segundo, grande divulgador da arte do Bardo, conhecerias o outro.

Mais ou menos isso que acontece!

Parabéns, Well!
Fico tâo orgulhosa de conhecer uma pessoa com a sua firmeza, grandeza de espírito e sabedoria, que você não imagina.
VOCÊ É ÚNICO!

Beijos

Mirse

WELLINGTON GUIMARÃES disse...

PORRA MIRSE, PRECISA ISSO TUDO, QUER ME FAZER CHORAR É ?
OBRIGADO , FICA COM DEUS.